15.6.13

"Não tenho mais paciência para o que antecede as relações. Para fazer caras e bocas, descobrir as afinidades e fazer esforço para agradar. Esse negócio de preparação, expectativas e olhar de raposa para o sujeito da mesa ao lado, desgasta o meu lado sentimental. Depois de tantas tempestades, resolvi guardar o caderno de receita. Agora, meu show é outro. Não invento um cenário, não reprogramo minhas falas e tampouco frequento aulas de conquistas amorosas. Sem nenhuma proteção e a sofisticada vigilância dos olhos em busca do parceiro ideal, permaneço livre desse extenso paladar do amor. Inclusive meu currículo anda perdido por uma gaveta qualquer.
O tempo passou e estou mais sóbria para desconsiderar as possibilidades do encontro casual tornar-se o objeto de perseguição dos meus antigos sonhos juvenis. Digo isso porque ficar ereta, retocar o batom, permanecer com o bonitinho sorriso congelado é a mesma coisa que uma algema apertada e impiedosa que suborna a minha força motriz a troco de insignificantes realidades.
Começar, descobrir, adivinhar, projetar, promove variações afetivas sem a garantia de a receita dar certo. Desgasta e contrai meus delitos de ser uma pessoa normal. Essa inauguração de recursos para atropelar o amor, desafia a minha civilidade.
Fico assim, com um filminho na TV, o telefone mudo ao lado da cabeceira, o cabelo em desalinho e o coração em completa liberdade. [...] "
Ita Portugal

Via Coisas que eu sei